Kiko Dinucci cruza a selva da cidade de São Paulo entre as guitarras e ruídos experimentais do álbum solo 'Medusa'
Kiko Dinucci lança hoje, 9 de setembro, o terceiro álbum solo, 'Medusa', com repertório inteiramente autoral Aline Belfort / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Títul...
Kiko Dinucci lança hoje, 9 de setembro, o terceiro álbum solo, 'Medusa', com repertório inteiramente autoral
Aline Belfort / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Medusa
Artista: Kiko Dinucci
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ Nona música do álbum “Medusa”, na disposição das dez faixas do terceiro disco solo de estúdio de Kiko Dinucci, “Como foi?” é bela balada de coração partido composta pelo artista paulistano com Romulo Fróes. Pela redonda arquitetura melódica, a canção poderia ter vindo com a assinatura de Roberto Carlos ou de Nando Reis, que não é nenhum Roberto, mas às vezes chega tão perto que até o ultrapassa.
Contudo, na voz de Dinucci, “Como foi?” é atravessada por ruídos na metade final da gravação de quase seis minutos, em sintonia com o tom experimental do álbum “Medusa”, primeiro disco solo do artista desde “Rastilho” (2020), álbum lançado há seis anos.
No mundo a partir de hoje, quarta-feira, 9 de setembro, em edição do selo Risco, “Medusa” é álbum de guitarras, fitas e samplers em que Dinucci radicaliza na experimentação.
Cantor, compositor e guitarrista, Kiko Dinucci é um dos nomes fundamentais da cena indie paulistana do século XXI, integrando turma que inclui outros expoentes dessa cena, como Rodrigo Campos, o supracitado Romulo Fróes e Juçara Marçal, nome aliás recorrente nas dez faixas de “Medusa”, álbum produzido por Dinucci sob a direção de Juçara.
Com capa que expõe obra criada pela artista plástica Tatiana Blass com inspiração na música “Faca da palavra”, o álbum “Medusa” transita por universo fiel ao som de Kiko Dinucci. “Claudia, Frota e eu”, parceria de Dinucci com Negro Leo, pode ser rotulada como samba em esquema noise que evoca a atmosfera de uma ou outra faixa do primeiro álbum individual do artista, “Cortes curtos” (2017), trabalho de ambiência punk que abriu a discografia solo de Dinucci há nove anos.
Também seguindo a cadência do samba, mas em tom (um pouco) mais tradicional, “Segundo eterno” é tema composto por Dinucci para a trilha sonora da peça “Avenida Paulista” (2025), encenada por Felipe Hirsch. Quando Dinucci fala em “calçada, gente correndo rumo à morte” em verso desse samba, o artista está falando da cidade natal de São Paulo (SP).
Kiko Dinucci apresenta grandes parcerias com Maria Beraldo e Romulo Fróes na safra autoral do álbum 'Medusa'
Pablo Saborido / Divulgação
É na selva dessa cidade que vaga, sem destino e sem paz, o personagem-título de “Cão perdido”, música climática que abre o disco em faixa gravada por Dinucci com a colaboração do guitarrista Lello Bezerra no arranjo e na produção musical. Na ruidosa “Água viva”, parceria de Dinucci com Sophia Chablau, a colaboração é de Podeserdesligado, codinome artístico de produtora musical carioca (residente em São Paulo) ligada ao universo da música experimental.
Podeserdesligado também contribui, ao lado de Gustavo Infante, para a formatação de “Casca do olho”, samba com ecos do som industrial da banda alemã Einstürzende Neubauten. Já “Loira Palmer”, música de alto teor erótico composta e cantada por Dinucci com Crystal Duarte (da banda fluminense Vera Fisher Era Clubber), remete ao universo surrealista dos filmes do cineasta norte-americano David Lynch (1946 – 2025), falecido no ano passado.
E assim – entre angústias, gozos, ecos do Sonic Youth e ruídos – caminha a humanidade de Kiko Dinucci em “Medusa”, álbum que traz a voz de Maria Beraldo em “Cascuda”, coautora dessa música ouvida em bela gravação melancólica que rasga a cidade com o som da ferragem, como poetiza um verso da letra.
É assim, com o som da ferragem, que Kiko Dinucci cruza a selva da cidade de São Paulo (SP) – sem paz e sem destino como um cão perdido – entre as guitarras e os ruídos experimentais do álbum “Medusa”.
Capa do álbum 'Medusa', de Kiko Dinucci
Obra de Tatiana Blass