Confissões sobre Maysa, cantora e pioneira compositora que faria 90 anos
Maysa, cantora nascida em 6 de junho de 1936 e morta em 22 de janeiro de 1977, faria hoje 90 naos Reprodução ♫ PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR ♬ Maysa faria h...
Maysa, cantora nascida em 6 de junho de 1936 e morta em 22 de janeiro de 1977, faria hoje 90 naos Reprodução ♫ PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR ♬ Maysa faria hoje 90 anos. Talvez eu perdesse o timing jornalístico da efeméride, se não tivesse me deparado pela manhã com postagem de Kiko Dinucci no Instagram. Sim, por mais improvável que seja a associação entre a cantora e compositora carioca com Dinucci, sambista punk paulistano, foi por ele que eu me toquei do 90º aniversário de nascimento dela. E, pensando bem, o link faz sentido, pois Maysa foi artista brilhantemente punk. “O samba-canção sempre foi um gênero violento, uma violência interna, de órgãos implodidos por amores frustrados”, caracteriza Dinucci na postagem. Achei lapidar a definição do artista sobre o gênero musical que identifica Maysa Figueira Monjardim (6 de junho de 1936 – 22 de janeiro de 1977) no imaginário nacional de quem viveu a época dessa cantora tão visceral. Ou de quem chegou a ela depois da morte precoce, aos 40 anos, em acidente de carro na ponte Rio-Niterói. A propósito, lembro da capa da revista “Amiga” que anunciava a morte de Maysa. A “Amiga” era revista voltada para o noticiário da televisão, especialmente das novelas. Mas dava capa para artistas de outros universos quando eles morriam violenta e inesperadamente porque a morte sempre vendeu revista. Maysa até fez novelas como atriz. Sei que ela atuou em “O cafona”, novela exibida pela TV Globo em 1971. Mas nunca a vi como a atriz. Lembro dela como cantora. E curiosamente a voz grave e intensa de Maysa me chegou através da trilha sonora de uma novela. “Meu mundo caiu”, o samba-canção que ela compusera sozinha e lançara em 1958, voltou às paradas em 1976, tocando na novela “Estúpido cupido”, exibida pela TV Globo no horário das 19h, com sucesso fenomenal, de agosto de 1976 a fevereiro de 1977. “Meu mundo caiu” era tema de Olga, a personagem vivida pela já centenária atriz Maria Della Costa (1926 – 2015). Logo depois, em janeiro de 1977, quando “Estúpido cupido” ainda estava no ar, Maysa morreu no referido acidente de carro. Passada a comoção com a morte da cantora, logo me esqueci de Maysa, atraído por outras cantoras então em evidência na década de 1970. Mas depois, em algum momento, redescobri Maysa e passei a ouvir a cantora. E nunca mais a esqueci. Admiro a compositora, pioneira no ofício então reservado aos homens, criadora solitária de músicas lindas como “Ouça” (1957) e “Tarde triste” (1956), melancólica canção que descobri na voz de Nana Caymmi (1941 – 2025) quando Nana gravou essa música para a trilha sonora da novela “O clone” em 2001. Primeira cantora a gravar um álbum inteiramente autoral, em 1956, e logo um álbum de estreia, Maysa nunca encarnou a cantora dócil e fofa que o mercado e o mundo machistas esperavam. Ao contrário. Levantou a voz, falou palavrões e desafiou normas, munida daqueles impagáveis olhos verdes, dois “oceanos não pacíficos”, como poetizara Manuel Bandeira (1886 – 1968) ao versar sobre a caudalosa correnteza em que Maysa se deixava levar na vida louca vida. Fosse Maysa cordata, ela não teria conseguido enfrentar a quatrocentona família paulista para virar cantora em 1956, em época de moral tão rígida quanto a hipocrisia da sociedade. Sempre admirei Maysa por isso. Ela foi empoderada antes de o adjetivo entrar na moda e no dicionário ativista. Também sempre admirei Maysa pela densidade da interpretação da artista. Não consigo imaginar outra cantora dando voz a um samba-canção como “Franqueza” (Denis Brean e Oswaldo Guilherme, 1957) com a legitimidade e a autoridade de Maysa. “Franqueza” figura no mesmo álbum de 1957 em que a poliglota Maysa gravou uma canção francesa, “Un jour tu verras”, lançada em 1954 na voz do coautor Marcel Mouloudji. Perdi a conta de quantas vezes ouvi “Un jour tu verras” com Maysa. Enfim, Maysa vive. Recorro ao clichê porque ele é verdadeiro. Volta e meia alguém (re)descobre Maysa, a que falou, bebeu, cantou e viveu demais nos meros 40 anos de vida, tempo suficiente para que a cantora se eternizasse na música brasileira. Viva Maysa!